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"FOME CINZENTA" Pantanal ainda sofre com fogo; animais estão sem comida e água

Profissionais de resgate e proteção afirmam as chuvas que começaram a cair ainda são insuficientes


Após os incêndios florestais que devastaram cerca de 20 mil km² do Pantanal, o cenário permanece precário mesmo com as pancadas de chuva que ocorreram em partes da região.

Segundo o coronel Paulo Barroso, do Corpo de Bombeiros, a recuperação da flora não tem previsão de melhora completa e a fauna do bioma que sobreviveu ao desastre ambiental passa pelo período chamado de "fome cinzenta", sem água ou alimentos.

O coronel é comandante do Posto de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres (Paeas) e atua na linha de frente no resgate da fauna e combate ao fogo desde agosto.

Ele conta que muitos pensam que a situação da área pantaneira se revolveu por conta das chuvas que voltaram a cair em áreas isoladas da região, porém deixa claro que os incêndios ainda não acabaram completamente e as matas seguem queimando na Estação Ecológica de Taiamã e na Serra do Amolar.

Na fome cinzenta há falta de água e alimento e é preciso distribuir. A chuva voltou, mas não em uma quantidade suficiente para abastecer os lagos e curixos com água e permanecer como era antigamente

Cerca de 195 animais que foram queimados estão sendo assistidos pela Paeas, número modesto se comparado aos animais feridos que ainda não foram resgatados de toda região afetada pelas chamas.

Além deles, existem os milhares de animais mortos carbonizados ou pela desnutrição que se espalham pelos mais de 2,2 milhões de hectares consumidos apenas na área mato-grossense. Já a fauna sobrevivente segue dependendo do auxílio dos voluntários para conseguir comer e tomar água, já que tiveram seu habitat destruído.

“Na fome cinzenta há falta de água e alimento e é preciso distribuir. A chuva voltou, mas não em uma quantidade suficiente para abastecer os lagos e curixos com água e permanecer como era antigamente. Só meses de chuva abundante será suficiente para encharcar o solo que segue seco”, explica, em entrevista ao MidiaNews.

Consequências da devastação

Além de todo o sofrimento dos animais afetados, a presidente da Comissão de Defesa dos Direitos dos Animais da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Mato Grosso (OAB-MT), Glaucia Amaral, relata que os efeitos do fogo ainda serão sentidos de forma profunda no meio ambiente, principalmente pela perda de gerações de espécies que foram perdidas durante a queima da região.

Glaucia dedica sua carreira para representar a fauna e defender a sobrevivência dos animais que não podem expressar diretamente sua necessidade. Por isso, a advogada alerta que questões como fome cinzenta e morte em massa das espécies afeta diretamente no equilíbrio da cadeia alimentar pantaneira.

“Com a falta de alimentação dos pequenos animais, os maiores que se alimentam deles também ficam sem comer, ou seja, quebra a cadeia alimentar. Sem falar dos que não conseguiram fugir do fogo e são desfalques nessa mesma cadeia alimentar. Então, a situação é muito crítica ainda”, afirma.

Ela, assim como o coronel Barroso, não conseguem estimar quando o equilíbrio será reestabelecido, tanto da flora quanto da fauna. Ambos acompanharam de perto toda a situação dos incêndios florestais, mas afirmam que a gravidade do cenário começou antes mesmo do fogo, já com a fase de seca na região - o que contribuiu para o avanço dos incêndios.

Fabiano Maisonnave/Folhapress Na linha de frente do resgate, o coronel Paulo Barroso afirma que ainda ocorre incêndio na Estação Ecológica de Taiamã e na Serra do Amolar

Preocupada com os próximos anos, Glaucia busca ler muito sobre a região pantaneira e, segundo ela, pesquisas já apontam que nos próximos cinco anos, os períodos de estiagem devem piorar, tornando quase certo que o fogo no Pantanal se repita, caso não haja prevenção.

As previsões futuras também assustam Barroso que, com vasta participação em eventos de desastres e incêndio, diz que o Estado caminha para um cenário semelhante aos grandes incêndios florestais que atingem regiões dos Estados Unidos e da Austrália, caso que seria inédito para Mato Grosso.

“Nosso Estado começa a apresentar esses eventos de grande magnitude, e isso é preocupante porque nos próximos anos a gente pode voltar a ter esse tipo de devastação. Precisamos nos preparar melhor e agir na causa e não no efeito, porque quando agimos no efeito, é custoso, penoso e danoso. Já na causa é prevenir para que o fogo não ocorra”, explica.

Cenário de terror

Tristeza foi o sentimento que Glaucia usou para descrever a experiência de presenciar a destruição de parte do Pantanal.

Apesar de exercer o cargo na defesa dos animais há um tempo, a advogada conta que nunca esperou um cenário tão terrível como o que aconteceu na região nos últimos meses.

Durante os três meses de fogo incessante, ela narra que viu chamas que atravessavam os rios, sem deixar escapatória aos animais; pessoas sem água potável; fogo que consumiam e isolavam grandes áreas; corixos secos que precisavam de caminhão-pipa para encher, e assim os bichos não morrerem desidratados.

Uma das imagens que mais marcaram Glaucia, além de todos os animais queimados e feridos, foi a de um Tuiuiu, ave símbolo do Pantanal, que morreu carbonizado ao lado do ninho junto aos seus ovos, para não abandoná-los.

Precisamos nos preparar melhor e agir na causa e não no efeito, porque quando agimos no efeito, é custoso, penoso e danoso

“Quando a ciência afirma que os animais sentem, gostaria que as pessoas se lembrassem dessas imagens. No Porto Jofre nós tivemos um dia bastante terrível quando se chegou ao Santuário das Onças, pois na margem do rio havia dezenas de animais de todos os tipos feridos pelo fogo, em uma proporção maior do que nossa capacidade de resgate”, conta.

Sendo mestre em defesa e segurança civil, coronel Barroso já ficou à frente e estudou diversas situações de desastres antes, porém, assim como Glaucia, enfatiza que o incêndio no Pantanal foi a "maior catástrofe ambiental" presenciada por ele.

E este não é um relato isolado. O militar conta que como foi muito televisionado o que ocorria na região, diversos voluntários de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília - que já tinham experiências com desastres como o que ocorreu em Mariana, Brumadinho, dentre outros -, quando chegaram para trabalhar, foram unânimes ao afirmar que nunca presenciaram um evento dessa natureza, com tamanha destruição e magnitude.

Ele afirma que a vivência diária na devastação fez com que percebesse que a sociedade precisa abrir os olhos para o que estava acontecendo para, assim, se tornarem conscientes da riqueza que as terras, hoje secas, significam para o patrimônio não só do Estado, como de todo o país.

“Nós temos que refletir qual é a mensagem que a natureza está nos mandando com esse evento desastroso, com essa catástrofe que ocorreu no Pantanal. Ficam as perguntas: o que nós seres humanos estamos fazendo para mudar esse quadro? Nós temos responsabilidade sobre tudo isso? Qual é o papel do estado? Do produtor rural? Do cidadão que vive na área urbana?”, questiona.

Mobilização e futuro

Um dos pontos cruciais para que dezenas de animais fossem resgatados e recebessem alimentação e água foi a mobilização imensa que impulsionou diversos voluntários a arrecadarem doações de dinheiro e mantimentos. Além dos profissionais de veterinária que se deslocaram até as regiões afetadas e se arriscaram para poder tratar das mais diversas espécies silvestres.

Glaucia frisa que as Ongs e coletivos como Ecotrópica, Ampara, É o bicho Pantanal, bem como voluntários da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), dentre outros, fizeram trabalhos inestimáveis e dignos de registros históricos, com muita atividade braçal, esforço físico e psicológico para enfrentar as mais diversas situações em meio ao fogo.

Também orgulhoso do trabalho dos voluntários, o coronel afirma que sem a ajuda não seria possível atender todos os hectares que eles alcançaram que, mesmo sendo um número modesto perto da devastação, ainda foi o responsável por garantir a sobrevivência de muitos animais.

No entanto, ele frisa que os esforços não acabaram e os centros de resgate e tratamento da fauna ainda precisa de doações de dinheiro e comida, principalmente por razão da situação de fome cinzenta, que deve durar mais alguns meses.

Fundação Ecotrópica Ongs e coletivos ainda precisam de doações de alimentos e dinheiro para ajudar os animais

Ele e Glaucia alertam para a prevenção dos próximos anos e na necessidade de investimento para conter qualquer chance de outro evento dessa proporção, já que não é garantido o quanto mais de situações extremas o bioma do Pantanal pode suportar futuramente.

Sendo uma região rica em divesidade e em oportunidades econômicas mato-grossense e do Brasil, há a urgência de ações por parte do Estado.

“A população precisa fazer seu papel e cobrar do Estado as medidas preventivas para um sistema de proteção contra incêndio florestal. É preciso que haja estruturação dos Corpos de Bombeiros, secretarias municipais do Meio Ambiente, Secretaria da Defesa Civil, criação das brigadas rurais voluntárias, privadas, estaduais indígenas, brigadas municipais. Nós temos que tornar a população de Mato Grosso resiliente ao fogo”, alerta.

Para ajudar

 A organização É o Bicho MT continua recebendo doações de alimentos que estão sendo entregues no Pantanal. A ONG pede a doação de 625 quilos de ração para cães e uma tonelada de ração para equinos. Também são necessários voluntários para fazer triagem dos alimentos, que tenham disponibilidade de ajudar de segunda a sexta-feira, a partir das 16h, na rua Feliciano Galdino, 50, Bairro Porto, em Cuiabá.

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